25/4/2008 14:44:23
Por Moskito
Se você for minha namorada, amante, irmã ou familiar eu tenho uma bela recomendação de leitura, conheça uma impressaionante técnica de relações interpessoais.
Bom, todo mundo que me conhece a mais de um ano sabe o meu plano mirabolante de vida era exclusivamente um desejo simples: pegar todo mundo.
Anote aí: depilar o peito e usar camisa branca, sempre aberta.
E nasci na época certa para isso. Pensando bem, talvez se eu tivesse vivido para estar naquele tal woodstock seria melhor para minha carreira sexual, as doenças venéreas eram desconhecidas e pernas eram abertas com o poder de persuasão eficiente que só um baseado bem bolado tem.
Mas eis que sou um pouco mais jovem e não pude pegar essa época. Minha amiga diz: deus não dá asas as cobras.
Mas ele deu! Aprendi, gostei e passei a trabalhar com internet. E querido leitor, internet é quase como o baseado para pegar mulher. Ba-ta-ta.
Afinal, o que as mulheres querem?
Primeiro, elas não querem pessoas que me escrevem e-mail. Não querem!
aeeee
vi no seu blog que vc escreve e achei legaaaal!!!1
qdo vc foi numa festa e ficou com um monte de gente, o que vc falava??
eu tambem quero pegar todo mundo, como faasss?!
Caro leitor, vamos com calma. Eu explicar "como fasss" não vai te ajudar em nada se tu não te ajudar. Ser desesperado não ajuda muito, isso só vai funcionar se tu tiver um blog e bancar o engraçadinho.
A base de tudo está em uma palavra simples, uma única palavra que abrirá novas portas (não preciso explicar o trocadilho, né?) para você: impressionar. Muito bem, agora você sabe o que fazer, mas tem que saber como fazer.
1. Dinheiro - parece óbvio, mas funciona. E não precisar ter, é só fingir que tem.
2. Contando história - essa é batata, minha técnica favorita. Minta, minta como se não existisse purgatório! Emocione. Diga que já fez isso e aquilo, que conhece fulano e ciclano, que fez trabalho voluntário na África, que é um grande importador de cocaína, que pula de para-quedas, boas notas, notas ruins, ser rebelde, ser religioso... cada caso é um caso - e uma estória.
Um dia escrevo sobre como mentir contar boas histórias.
Perceba que os porras-loucas aqui tem uma vantagem: tem histórias reais para contar e impressionar as menininhas.
3. Seja poderoso - O dinheiro ajuda aqui, mas poder não depende exclusivamente de dinheiro. Seja o cara mais popular da faculdade ou do trabalho, seja músico e tenha groupies, seja amigo do Supla ou do Beto Bruno, faça os caras de Bidê ou Balde cantar uma música com o teu apelido, vale tudo que demonstre poder.
Esse item explica porque quando tu tem várias mulheres no pé existem outras várias atrás de ti. Se tu tens poder em cima de algum grupo (as que te seguem e te desejam) as outras irão querer uma lasca.
É simples, é funcional e o principal: é inofensivo, afinal o objetivo aqui não é criar monstros, o objetivo é instruir a rapazeada a poder fazer suas amantes, mulheres e namoradas muito felizes.
Lembre-se pequeno gafanhoto: a perfeição está no treino.
Depois que você for desmascarado, você pode recorrer a alguns sites decentes como o Papo de Homem. Ou fazer como eu e mudar de nome e de cidade, mas uma oisa é certa: nada te fará pegar tanta gente como os passos que eu citei aqui.
Abraço e boa sorte!
Moskito é feio, chato, bobo e não dá atenção aos comentários que fazem sobre suas idéias e ideais e recomenda e defende até a morte obras do mestre Paulo Sant´Ana
em suas filosofias para uma melhora do relacionamento: não casem.
31/3/2008 10:29:57
Por Moskito
- Tu é diferente, não sei explicar, adoro estar aqui, contigo.
- Eu te amo!
Elas fisgam, lindas sensuais e todas "diferentes". Ela era diferente. E era tudo o que eu queria perto de mim, meu deus como eu queria ela perto de mim. E queria e tinha e tudo era uma beleza e não me importava de trabalhar e não me importava de pagar cervejas e não me importava de nada, me importava com ela e era a mais irracional das criaturas. Eu era um homem apaixonado. Mas nem tudo era tristreza, ela não me explorava nem tirava meu dinheiro, e nem nada. Trabalhava e me ajudava e me tratava muito bem, e era tudo lindo como qualquer idiota acha que é.
E lá estava eu, pela primeira vez - que posso lembrar - totalmente desesperado. Gente despreocupada feito eu não se abate pelo desespero nem nas horas mais tenebrosas, chama-se síndorme de superioridade, quando se pensa poder resolver qualquer situação. E isso tem seu lado bom: permite uma autoconfiança fenomenal para encarar as mais complexas adversidades.
Mas naquele momento, naquele exato momento não existia confiança que fizesse meus músculos pararem de tremer. Tremiam como se eu estivesse tendo uma convulção ou ataque epilético. Era ela!
Ilustração de Diego Acosta
Meus olhos não poderiam estar sendo mais cruéis comigo: realmente era ela. Nua, linda como sempre, beijando ele. Fuckin'hell, eu não tive nenhuma reação, fiquei parado olhando pela fresta na porta entreaberta, amargando e querendo nunca ter visto isso. Uma vadia, era isso que ela era.
Recuperado, bati na porta e entrei com um sorriso no rosto. O movimento dos dois parou. Freeze! Interrompi qualquer sensação boa do momento, pelo menos isso.
- Não precisa parar por minha causa. Só vim pegar meus cd's, estou de saída.
Ela balbuciou alguma coisa que não entendi e se vestia rapidamente enquanto eu pegava meus cds. Arrecadei o que me interessava botei na mochila e saí do quarto. Ela me chamou, mas naquele momento eu estava surdo. De dor, de coragem, de amor própio. Vadia, uma vadia como estas que encontrava em botecos que muito frequentei.
Liguei o carro e sai enquanto ela aparecia, ainda descalços mas vestida na frente da casa pedindo para eu esperar. Buzinei duas vezes, acenei e arranquei o carro. Parei na esquina, dei mais duas buzinadas e ela correu em direção ao carro. Quando ela se aproximava joguei sua bolsa - aberta, claro - pela janela e arranquei.
Fiquei com a carteira, o cartão foi suficiente para encher o tanque e comprar mantimentos para a viagem. O pouco dinheiro que tinha, guardei. Fiz meu ranchinho num mercado na saída da cidade, Argentina aí vou eu.
Meses, mais de ano assim, exterminados de minha memória. Nunca (e nem tentei) desobri quem era o cara, mas uma coisa é certo: ela é uma vadia.
Uma vadia, dessas que encontro nos bares!
- Ela realmente é uma vadia! esquece isso, ela te sacaneou mas tu esta aí, com uma experiência a mais...
- É....
Ela parecia tão diferente, tão segura, e linda, como todas as outras.
- Tu é diferente, não sei explicar, adoro estar aqui, contigo.
- Eu te amo!
29/3/2008 12:11:59
Por Moskito
Ser anão não é fácil. Eu não sou um anão, nem um Hobbit, mas sou baixinho. Nanico, sabe? Sento num banco de bar e meu pé fica balançando, sem encostar no chão. Não acho ruim, nunca me trouxe maiores problemas.
Só na hora de brigar, que um pouco mais de altura seria bom. Mas em briga de bar o que conta mesmo é quantas cadeiradas e garrafadas você aguenta sem cair. E já vi muito cabra macho de quase dois metros dormir que nem criança com apenas uma garrafa bem colocada entre o topo da cabeça e a nuca.
Uma dessas madrugadas de trabalho estava acompanhando o Pijama Show, na rádio Atlântida, e um dos temas era sbre os caras baixinhos. A dúvida era se nós, baixinhos, quando chegamos em algum lugar (balada, no caso) descartamos a possibilidade das mulheres altas. Tipo, ignorar da lista mulheres-que-tentarei-esta-noite. Nunca tinha pensado nisso, mas é uma verdade: não vou lutar contra a física e tentar pegar uma mulher que, nem pulando, eu consigo beijar.
Ser anão então, aí sim não é fácil. Anão mesmo, bater no joelho das pessoas.
Como meus amigos próximos sabem, eu tenho uma pequena chácara, uma fazendinha pode-se assim dizer. Uma fazendinha de anões. Meu dinheiro não vem totalmente de empreendimentos internéticos como o Mas Que Loucura, And After, GS Soltuions e Direto da Prisão. Isso é apenas uma ponta do meu iceberg financeiro, que na realidade, gera um lucro que se não fosse minha paixão por internet, não valeria a pena. Três, cinco, sete, quinze dólares por dia. Não é bastante nem para pagar o desgaste de máquina + internet. E dá trabalho.
Voltando a minha fazendinha de anões, ontem eu tava conversando com Kabir, que é quem administra meu pequeno empreendimento agrícola com anões, e olhando os números a fazenda de anões não está rendendo bem. Discutíamos o que fazer com aquela gente toda (eles brotam da terra, quando comprei eram em seis, hoje estão em dezessete!), chegamos a uma conclusão: fazenda dá muito trabalho, buscando alternativas de rendimentos com anões, Kabir teve uma grande sacada quando falou que deveriamos tentar uma coisa mais urbana, grupo de esmolas em sinaleiras, aviõezinhos do tráfico, vigilantes anões...
Buscando uma alternativa aceita pela sociedade e pela lei, fui pesquisar e encontrei no Blog do Bender uma alternativa que se mostrou altamente viável.
Os lucros estão sendo fantásticos. Adquiri seis máquinas e os dezessete pequenos-trabalhadores se alternam em turnos que só Kabir entende, deixando-as 24 horas em funcionamento.
Não chutem as máquinas de refrigerante. Sério.
O único que não participa das empreitadas das máquinas é o Abdul, que está se apresentando junto com a Cia de Teatro e Dança Anões Folgados, um empreendimento a parte do meu querido sócio Kabir.
Outra hora eu explico melhor porque decidi trabalhar com anões, um ramo tão pouco explorado e conhecido entre investidores nacionais. O ramo é crescente, cada vez mais...
Fica a recomendação, comprem anões em baixa e vendam em alta.
Abraço,
Moskito é investidor, designer, escritor, empresário, cidadão do mundo e mentiroso.
17/3/2008 12:45:42
Por Moskito
Sábado, este que passou, fui em um jantar - galeto com massa - muito bem servidor. Como nem tudo é alegria, me ludibriaram, o jantar tratava-se apenas de uma boa desculpa para eu participar de uma palestra sobre depressão.
Um psiquiatra muito louco, mas com idéias e metodologia excelente, que me fazia alternar os pensamentos entre "sirvam a comida - sirvam a comida - CARALHO, quanta gente com depressão! - sirvam a comida - sirvam a comida" e assim foi a palestra toda. Mas porque diabos eu estou falando disso?
Meus caros, sofro pequenos distúrbios psicológicos. Aposto minhas bolas que TU, é, tu mesmo, já sofreu algum tipo de depressão ou distúrbio mental-psicológico. Mesmo sendo o cara mais feliz da turma - e acredite, se tu é o mais feliz tem algo errado, pode ser um distúrbio de humor, ou quem sabe uma depressão maníaca, huh?
Aquela dor de cabeça, existe mesmo?
Há alguns casos em que o indivíduo tem idéias delirantes, que são juízos falsos. Existe uma síndrome, que a gente chama síndrome de Cotard, durante a qual o indivíduo passa a se sentir tão mal que ele acredita que não tem o esôfago. Claro que é um falso juízo: se ele não tem o esôfago, ele não pode se alimentar, entendeu? E isso é gravíssimo, porque nesses casos a depressão não se trata somente com remédio, esses são casos em que, por exemplo, poderiam se beneficiar de um tratamento de eletrochoque. Outro exemplo: o indivíduo começa a achar que está com Aids, que foi contaminado. Então ele tem delírios que invadem a mente, a vida dele, ele passa a evitar usar coisas em comum, que os outros podem estar usando, ele começa a ter uma preocupação com contaminação, então passa a ter idéias paranóides e hipocondríacas.
Luiz Caversan
Tenho medo de algumas coisas nunca terem existido. Alterações no sono e também no apetie podem ser indicadores da depressão. Conversar não resolve, meu psiquiatra disse que muitas pessoas buscam no álcool um remédio. Será que é o melhor? Ou o melhor é se dopar com os faixa-pretas que ele recomenda?
- TENHO MEDO DE SER ESQUISOFRÊNICO DOUTOR!
Eu falei assustado.
Calma, me respondeu ele explicando, este tipo de demência perturba normalmente pessoas com QI alto, pelos testes você se encaixa no quesito QI, mas não é o caso. Tu sofre apenas de distúrbio bipolar. E tem mais...
A sua prevalência atinge 1% da população mundial, manifestando-se habitualmente entre os 15 e os 25 anos, nos homens e nas mulheres, podendo igualmente ocorrer na infância ou na meia-idade.
Wikipédia
Tu não seira tão azarado, seria? Ah, se o Doutor soubesse! Seria sim. E sou.
A esquisofrenia funcina como uma "depressão pirada", onde você te alunicanções - principalmente auditivas, mas depende de cada caso. Eu já sou daltônico, vejo o mundo diferente do que tu está enxergando, tenho meus altos e baixos de uma forma espetacular - que me agradam, quando não estou com produtividade 0 - mas alucinações? Isso é demais.
Não vou aceitar me submeter a nenhum tratamento de eletrochoque para a depressão ou outros distúrbios.
- Cara, cala a boca.
Me interrompeu o analista de sistemas da empresa. Como assim, cala a boca? Ele pensa que a sala é dele? E talvez realmente seja, mas eu estava no meio de uma consulta.
- Deixa eu terminar minha consulta, companheiro.
- Te manda cara. Tu já tá a 20 minutos nessa sala do servidor falando sozinho, te manda e vai pro departamento da veadagem e criação, some daqui.
Veadagem e criação?
- Viu só, como ele me trata?
- CARA, ISSO É UM DATACENTER, SÃO SERVIDORES. NÃO TEU PSIQUIATRA.
Me retirei conturbado e arrastado pela segurança. Cá estou, me recomendaram consultar um profissional e cá estou, falando com o senhor, Doutro... qual seu nome mesmo?
- Gringo. E aqui é um bar, não um consultório psiquiátrico.
- Bar?
- É, bar.
- Então me dá uma cerveja.
7/1/2008 15:28:46
Por Moskito
Peguei a ficha de atendimento no Santander e fui sentar. Cadeira estofadinha, uma beleza. Abri o último (ou seria o primeiro?) botão da camisa, estava calor aquele dia. Pelos números das fichas tinha aproximadamente vinte pessoas para serem atendidas na minha frente então resolvi tomar um café.
Existe um barzinho do lado do banco e eu iria sentar ali uns minutos, mas quando estava saindo vi que o banco tinha cafézinho para os clientes e claro que - com toda minha sabedoria em ser mão de vaca - fiquei pelo banco mesmo. Sou... cafézólotra? Viciado em cafeína mesmo sabendo os males que isso está me trazendo a longo prazo. E a curto também. Descaradamente me encostei na parede do lado da térmica enquanto tomei três copos médios de café, bem doce.
Logo minha mente disparou, resultado do café - e é por isso que gosto tanto de cafeína. Ah, estas ínas da minha vida. Larguei uma para viciar em outra. Troca boa, pelo menos o café é menos nocivo. - bem menos nocivo. Posso tomar café onde eu quiser, diferente da ína usada em outros tempos. Ela faz falta para o meu corpo. Ou para a minha mente. Me faz tremer as vezes, ficar de mal humor, gritar. Maldita refinada.
Quando minha mente disparou peguei a conta vencida e fui calcular os juros. Era sete de janeiro, e quando vi a data pensei em mais um ano que se foi. Passou em branco? Atingi minhas metas? Eu tinha metas? Pensei confuso, eu até faço metas mas como não as anoto ficam no esquecimento comum de minha mente.
Puxei um papel do bolso e peguei uma caneta, era hora de ver o que eu queria ter feito e o que eu realmente fiz. Colocar no papel e estabelecer objetivos para o ano que estava começando. Em 2007 os objetivos eram:
Metas de 2007
Lançar um site colaborativo
Conseguir uma namorada
Não se acidentar de carro
Comer todo mundo
Atingir número X de visitas diárias no And After
Ganhar dinheiro
Comprar um notebook
Me formar naquela faculdade de merda
Usar uma camisinha fosforescente
Pegar no mínimo 3 gostosonas
Não morrer
Abrir uma empresa
Ficar rico
Pegar mais 5 gostosas além das 3 anteriores
Quando terminei de escrever percebi que tive um aproveitamente de quase 50% no ano que tinha passado, achei muito bom. Alguns objetivos foram arrastados para o ano que estava começando, virei o papelzinho que levo no bolso e atrás escrevi:
Metas para 2008
Ganhar dinheiro blogando
Pegar 5 gostosas além das três do ano anterior
Me vingar de pelo menos 1 arqui inimigo
Abrir uma empresa
Ficar rico
Não deixar meu blog morrer
Atingir um número X de visitas em meu blog e no site colaborativo
Não morrer
Me formar na merda da faculdade
O ano promete ser medonho por 2 fatores: pegar 5 gostosas já é complicado para mim, agora pegar 5 gostosas ao mesmo tempo que sou um bom profissional e faço faculdade vai ter que contar com a ajudar de algum pacto com o demônio. Fora o fato de registrar e administrar (melhor) uma empresa, pagando impostas (blah!).
Paguei a conta e os juros quando estava saindo peguei mais um café. Enquanto ia embora caminhando com a mente ainda perturbada com as paranóias de objetivos e metas pensei: metas são para os fracos. Metamorfoses ambulantes feito eu não podem ter metas.
Aproveitem este ano.
13/12/2007 02:08:59
Por Con
Imagine, prezado leitor, o espanto que me apoderou quando, repentinamente, adentraram meu quarto quatro mirradas criaturas humanóides, com seus pequenos chapéus encarapitados no cocoruto da cabeça, olhando com cara de assustados pra mim como se algo os perseguisse. Minha primeira reação foi fechar os olhos e abri-los novamente, pra me assegurar de que o que eu via não era miragem ou alucinação devidas ao grande sono e ao cansaço que se abatiam sobre mim. Mas não, definitivamente, havia quatro duendes em meu quarto.
Levantei-me da cama, solícito, disposto a ajudar as quatro criaturas místicas ali presentes; afinal, para terem se dado ao luxo de saírem de seu mundo imaginário e aparecerem no mundo real, algo de realmente sério deveria estar acontecendo. Como não tinha certeza de que seria perfeitamente entendido falando em português com esses seres, fiz alguns gestos que permitiram a eles entender que eu queria saber se eles sabiam falar. Assentiram, com um gesto de cabeça, mas sem proferir uma palavra sequer. Arrisquei-me, pois, a dizer os primeiros vocábulos:
- Ahhh... Err... Hum...
Nada mais saía de minha boca, exceto sons guturais, que no fim das contas, nada tinham de significado real. Eles logo perceberam meu embaraço com a situação e, finalmente, emitiram sons inteligíveis:
- Cara, você tá muuuuuuuuuito doido.
O duende que disse isso olhava diretamente pra minha cara, mas tive certeza que ele se dirigia a outro dos duendes, pois este outro replicou com “Pode creeeeer”.
Percebi então o que se passava. Os duendes, no auge de sua loucura devido ao uso de algum entorpecente lícito ou não em seu mundo, acabaram, por descuido, vindo parar dentro do meu quarto. Rapidamente, fiz sinais para que os pequenos se mandassem dali, já que eu não estava disposto a receber visitas drogadas em minha casa. Ao tentar verbalizar essa minha posição, mordi a língua, que começou a sangrar e doer. Gritei, e alguém invadiu meu quarto.
Enfim, perguntas foram feitas, suspeitas levantadas contra minha pessoa, e ninguém mais viu os duendes. Sei que por causa deles, fiquei uma semana e meia falando com a língua presa, sem poder utilizá-la pra nada de interessante (como sentir o gosto de alimentos), e além de tudo, recebi a alcunha de Zé Droguinha pelos amigos que me socorreram. E tudo por causa de uns malditos duendes, vê se pode!
30/11/2007 17:20:33
Por Moskito
Buenas, povo! Como vocês podem perceber (pela falta de atualização por aqui) to numa correria infernal e isso é bom, muito bom. Trabalhos e trabalhos resultando em duas de minhas paixões: design e dinheiro.
Não arrumo tempo para escrever mas não largo o vício da leitura e em uma das seletas comunidade do Orkut (bah) que participo (sobre design) encontrei o blog de Alexandre Bobeda, que autorizou a publicação de um de seus contos.
Sem mais delongas, com vocês "Mosaico em preto-e-branco".
Nina, uma menina de cinco anos, brincava com seu pequeno poodle no jardim da casa dos pais num subúrbio de Estocolmo, na Suécia. Ela nem percebia o quão simples era a situação, talvez até mesmo banal. Falava com o animalzinho em sueco, mas também arriscava já algumas bem colocadas frases em inglês. Seu pai se dirigia a ela falando com vigor em sua dura língua nórdica, que se transformava em inglês quando ele precisava falar com sua mãe – ou seja, o tempo todo. Uma rotina que só a lourinha notava.
Mas, quando Nina falava com sua mãe, se esforçava para conseguir pronunciar bem as escorregadias palavras de uma língua que, na ainda confusa cabecinha da menina, parecia muito difícil, embora de uma agradável sonoridade: o português. Dificilmente ela poderia dizer “carioca” sem vacilar. E sua mãe, que de sueco só sabia as palavras básicas, para saudações, cumprimentos e pequenas gentilezas, evitava o inglês quando falava com Nina, a fim de que a doce e pequena lourinha pudesse se acostumar aos chiados e ao ritmo alegre de uma língua que, para a menina, não vinha de uma terra longínqua chamada Brasil, mas apenas do falar carinhoso de sua mãe.
No meio de tudo isso, a pequena Nina criou um imaginário particular no qual o mundo era mais ou menos dividido em duas línguas: o sueco e o inglês. Talvez ela até pudesse pensar que existiam outras, mas isso não era importante. Até porque, em outros países que a família visitou pelo mundo, a lourinha se lembrava que seus pais falavam quase sempre em inglês. No seu mundinho ainda em formação, sua mãe era a única pessoa no planeta que falava nesse estranho idioma. Ainda mais porque, ao ver os jogos de futebol cujo time vestia uma camisa amarela idêntica a que adornava sua mãe, os jogadores não falavam. Mas, na hora da comemoração, Nina sempre vibrava à sua maneira. Em sueco.
Até que um dia, numa de suas férias escolares de agosto, a menina veio feliz com sua família a um lugar encantador, com praias e montanhas casadas com uma grande e bela cidade. Antes disso, o Rio, para ela, era apenas o cartão-postal preferido de seu avós, que todos os meses já lhe enviavam alguma mensagem por escrito – lida em voz alta por sua mãe. Então, tudo mudou quando a pequena lourinha sueca pisou pela primeira vez no calçadão da orla de Ipanema. Aquela confusão de sons e palavras que se pareciam a várias outras que sua mãe já lhe falara, a deixou maravilhada. O mosaico em preto-e-branco das pedras portuguesas da calçada se tornou a associação perfeita para o que, segundo ela e sua imaginação, poderia ser mais uma novidade acerca do mundo em que vivia. Aquelas “ondas” com os círculos, ambos alternadamente dispostos em duas cores, formavam uma realidade que ela pensava que só existia através de sua mãe.

Nina, assim, tomou-se de encanto ao descobrir que existe um lugar, com uma bela e exuberante praia de água turquesa, onde as pessoas, falam, gesticulam pensam e sentem como sua mãe: em português. Se ela pudesse se expressar da mesma forma, diria a todos que a vida aqui é mais feliz, que o sol brilha intensamente, que este lugar é mais colorido do que parece, que as pessoas podem ser alegres à sua maneira e que o mundo não fala só inglês ou sueco. E isto foi apenas seu primeiro passo. Toda essa alegria trouxe também uma viva curiosidade.
Agora, Nina se pergunta como será o mundo além de seu próprio universo.
Eu nem preciso dizer que gostei, senão não o publicaria aqui. Se você, leitor culto e maníaco por leitura, gostou tem mais alguns que recomendo a leitura no Outro Lado Contos.
14/11/2007 22:32:34
Por Moskito
- Alô?
- Bom dia, eu gostaria de falar com a senhora Regina Pereira Lima da Silva?
- É ela quem está falando…
- Bom dia, aqui quem fala é Júlio César, do Banco Fantander e gostaria de avisar que a senhora foi agraciada com a oportunidade única de poder estar fazendo parte do seleto grupo de privilegiados que poderão estar usufruindo de uma linha de crédito exclusiva que…
- Não, obrigada, não estou interessada, ok? E mais uma coisa: tem como vocês me deixarem em paz? Não agüento mais. É todo dia, esse telemarketing ridículo, áfe! Passar bem e…
- Um momento, senhora. Deixe que ao menos eu explique as inúmeras vantagens de estar sendo um cliente Vip-Vap do Fantander, cuja…
- Ei, espere aí… eu estou reconhecendo essa voz… meio rouca… esse jeito meio cantado de falar…
- Como, senhora?
- Não é possível. Não, não pode ser… É você, Júlio? É você?
- Eu quem, senhora?
- Você não é aquele rapaz que tem uma tatuagem do Chapolin transando com a Madonna, no braço esquerdo?
- É… sim… mas… de onde você me conhece?
- CAFAJESTE!!!
- Hein?
- Eu sou a Regininha, aquela idiota com quem você ficou há umas semanas atrás, lá na danceteria “Sheikobari“. Lembra agora?
- Nossa! Regininha? É você? Que coisa…
- Pois é… Lembra que você me prometeu ligar no dia seguinte? Lembra? Hein?
- Olha, veja bem…
- Que eu era isso, era aquilo, que jamais tinha ficado com uma mulher como eu… E a tonta aqui, acreditando, deixando que o canalha avançasse cada vez mais! Ai, eu sou uma burra mesmo! Uma anta!
- Mas…
- E no dia seguinte, a paspalha aqui, o tempo todo ao lado do telefone, aguardando por sua ligação. O dia inteiro!!! Júlio, eu tinha me apaixonado, sabia? Tem idéia do quanto significou aquela noite pra mim? Tem? Cafajeste!
- Pô, Regininha… Peraí, deixa eu explicar, minha linda…
- “Minha linda” é uma ova, viu? Nem vem!
- Posso explicar? POSSO?
- Tente…
- Então, no dia seguinte, tive que ir pro hospital, logo de manhãzinha, pra ficar ao lado da minha tia-avó, que estava mal pra burro, sabe? Na correria, eu nem lembrei de esvaziar os bolsos da calça que eu tinha usado na noite anterior, onde estava o papelzinho com o seu telefone.
- Hum…
- Nisso, minha flor, a empregada viu a minha calça em cima da cama e a levou pra lavar, sem esvaziar os bolsos. Resultado: lá se foi o papelzinho com seu contato, minha linda…
- Nossa…
- Pois é. Pra piorar, a minha tia-avó morreu no dia seguinte. E, cá entre, nós, no velório da coitadinha, todos pensavam que eu estava chorando por ela. Que nada. Eu chorava que nem um bebê por não ter mais ao meu alcance aquele papel com o seu telefone, inconformado por ter perdido a chance de voltar a entrar em contato com a mulher maravilhosa que eu acabara de conhecer.
- Eu?
- É claro, minha princesa. É óbvio. Você, sem sombra de dúvidas, foi a coisa mais especial que já aconteceu na minha vida. Nem em dez reencarnações eu terei a chance de encontrar uma mulher feito você: linda, inteligente, charmosa, carismática…
- Ai, Ju… pára.. assim você me deixa sem graça…
- Mas é verdade, vê só como é o destino? Agora te encontro assim, por acaso, nessa ligação. Regininha, a nossa estória estava escrita nas estrelas… Nas estrelas! Deve existir uma constelação somente nossa, lá no céu, minha linda!
- Ah, eu sabia que, lá no fundo, eu reencontraria você. Que a nossa estória continuaria para além daquela noite. Que não foram somente beijos, uns amassos… Teve algo mais… Eu tive certeza disso, Ju…
- Eu também, minha linda. E olha só que coisa bacana, que tal comemorarmos esse momento, esse reencontro cósmico, com você abrindo uma linha de crédito lá no Banco Fantander? Quanto mais dinheiro tivermos em nosso futuro, maiores serão as alegrias reservadas para a gente! Já imaginou?
- Você acha, Ju?
- Claro, princesa… Vai por mim, meu amor. Só precisarei pegar seus dados aqui pra ativar a sua linha de crédito. É rapidinho, tudo bem?
- Tudo…
Dez minutos depois:
- Pronto, foi pro sistema. Maravilha, Regininha! Parabéns, você agora está fazendo parte do seleto grupo de agraciados com a linha de crédito Plus Owned do Banco Fantander. No prazo de quinze dias, você estará recebendo um manual com mais instruções para que você possa estar sempre conseguindo o melhor do Banco Fantander, o banco que não tem clientes, mas sim amigos!
- Legal, Ju… Mas, quando é que você me liga de novo? Vamos sair? Olha, me passa o seu telefone… Me…
- Nós, do Banco Fantander e seus associados, agradecemos a confiança, desejando a você um ótimo final de semana e um sincero beijo no coração. Muito obrigado.
- Mas…
(tu, tu, tu, tu…)
Esse post foi escrito por Tuca Hernandes no Fiapo de Jaca
12/11/2007 11:51:31
Por Moskito
Pedro era megalomaníaco. Ponto. Os que o conheciam sabiam disso - a questão é que e ninguém realmente o conhecia. Pensava globalmente, queria tudo. Queria envelhecer viajando por aí e não viajar já velho. Queria condiçõesde pagar boas putas, novinhas e limpinhas agora e não só quando velho. Se fosse solteiro, claro.
Pedro nunca suportará ficar preso a um único lugar, idéia, planeta ou pessoa.
Pedro
Pedro o viajante,
o mochileiro,
tantas vezes muambeiro.
Pedro Pedro Pedro
Pedro sempre,
com pouco dinheiro.
E esse foi um dos motivos que o levou a internet como uma fonte alternativa de renda. Do nadas surgiu este freelancer - miserável como todo o autonomo deve ser. Mais liberdade que um escritório ou abrir uma agência permitiria. Bem mais. Em contrapartida, ganhando menos. Bem menos.
Pedro e a impressora a laser
Pedro não tinha ruim. Jeitinho aqui, trabalho ali, uma idéia boa - mal executada como sempre. Ah, se ele executasse suas idéias - sóbrio. Pedro o megalomaníaco. E naquela noite juntou os R$ 700,00 que acabara de receber e foi para a estação rodoviária.
Pedro tinha dezessete dias e um caixa de R$700,00 na mão e não mais que R$ 300,00 na conta para realizar esta missão.
Ia começar por Curitiba - no máximo duas semanas. Lá tinha onde ficar e podia conseguir algum dinheiro a mais para seguir seu rumo. Chegou na rodoviária era pouco mais de oito horas, estômago embrulhado - não sabia se pelo sanduíche de comida vencida ou pela ansiedade de finalmente botar o pé na estrada rumo ao que ele queria.
Péssima hora aquela para encontrar ela lá. Sentada, sozinha e falsamente vulnerável, tomando o vento forte direto na cara. Surpresa para ambos aquele encontro.
- Pedro! Tu vais viajar?
- Não, vim comprar uma casa - Pensou, rabugento como só ela conseguia o deixar.
- Vou sim, Curitiba. E tu, vai pra onde?
- Curitiba! Estou com a passagem do Marcus sobrando, ele foi ontem de carona e não consegui trocar...
Ah, aquele seu jeito amiguinho e humano de ser. É meu velho Pedro, foram poucos minutos de conversa e tu se deixou levar: quase oito horas ao lado de Carol.
Aliviado pela chegada, em Curitiba ele se despediu e ela percebeu algo estranho. Carol não era moça burra, ligada que era sabia que Pedro estava aprontando alguma coisa - ela sabia das loucuras que ele era capaz.
- Que tu tá armando, Pedro?
- Nada.
- Para Pedro, conta! Quero saber, eu vou junto!
- Nem fodendo, vai lá que o Marcus deve tá te esperando.
- A gente terminou. Terminou.
- Ta, tchau.
- Eu sei de tudo Pedro.
E foi jogando verde que Carol conseguiu levar o inocente pedro a aceitar a companhia. Pedro, macho-frouxo-abalado como qualquer um é perante a beleza e falsa vulnerabilidade da amada - a tendência masculina é proteção, por isso a forte atração por fêmeas vulneráveis, no caso dos humanos mulheres com rosto de menininha. Ficou ali parado olhando fundo nos olhos de Carol. Cor mel, parecem sempre prontos para lacrimejar. Bonitos olhos.
No segundo dia estava Pedro no hotel pensando em como conseguir dinheiro enquanto admirava a paisagem curitibana. Nós não vamos pagar o hotel, não vamos. Carol acordou e quando se inteirou das idéias, aceitou.
Pedro só tinha quinze dias e o seu estranho celular bipou - "continua quinze dias mas ele sai de Curitiba em seis dias" falou a voz fanha-computadorizada do outro lado da linha.
Até o quinto dia tudo que os dois tentaram deu errado e eles já estavam no terceiro hotel - sempre aplicando pequenos golpes para não pagar as diárias inteiras. Ainda tinham trezentos reais, insuficientes até para a comida. Pedro apesar de magro comia por três.
- Depende de nós, ele não pode escapar Carol!
- O que depende de nós?
- Os brócolis! Você disse que sabia!
- E como vamos fazer?
Ela não fazia idéia do que estava se passando. Pedro o inocente sendo enganado por uma gostosa de dezenove (bem vividos) anos. Toda sua experiência foi inútil contra isso Pedro.
Carol acendeu um baseado que Pedro prontamente tragou e prendeu. As idéias fluiam loucamente quando Pedro fumava um baseado. Ele conheceu os efeitos da maconha a pouco tempo e os adorava. Não entendia a proibição. E foi em uma de suas viagens enquanto beijava Carol - outra recente descoberta para ele - que ele viu a solução para os problemas.
Os brócolis, ah os brócolis. Ele tinha que deter o Ramon ainda em Curitiba senão tudo ficaria mais difícil. Naquele dia ele foi para a feira da cidade equipado com seu celular estranho - identificador de não-humanos. Passou dois dias sem dormir, perambulando pela cidade ao redor daquela feira. Tinha certeza que Ramon passaria por ali.
Steve, não faça isso!
Contamos contigo Pedro!
No final do segundo dia já exausto ele estava pronto para desistir e ir para o hotel encontrar com Carol para alguma transa enlouquecida - descoberta recente para Pedro. Mas ele estava certo - seu celular bipou indicando que algo estranho estava por ali. Guardou o celular no bolso e passou a se guiar pelo olfato, andando alguns poucos metros de de cabeça erguida chegou perto de um homem de terno cinza, chapéu e óculos de lente. O cheiro é dele, é Ramon, pensou.
Se afastou discretamente e manteve o homem em seu campo de visão enquanto o seguia. Ramon carregava uma bolsa e andava distraído, o que lembra muito o Pedro. Depois de quatro quarteirões de caminhada eles já estavam em uma rua pouco movimentada e começava a escurecer, mas foi quando Ramon entrou em um banheiro público que Pedro viu sua oportunidade de acabar com aquilo tudo.
Quando Pedro entrou Ramon estava em algum box do banheiro. Ele subiu no primeiro box e olhou o para o do lado, deu sorte, ali estava Ramon sentado e fedendo cada vez mais. A expressão facial de Pedro se transformou naquele momento. Seu natural semplante de paz estampado no rosto acabou. Os olhos transmitiam uma imensa vontade de matar, enquanto começava a babar e sua respiração ficava mais forte.
Ramon ouviu a respiração mas quando olhou para cima e tentou levantar - espalhando merda por toda a privada - já era tarde, Pedro se lançou sobre Ramon e seus dentes acertaram a moleira de Ramon. Duas, três mordidas. Nenhum grito e Ramon se estatelou contorcido no box.
Estranhamente Pedro sempre levava em sua mochila uma toalha. Era motivo suficiente para Carol o tornar motivo de chacota. Ele pouco se importava. Pegou a toalha da mochila e limpou sua cara. Com a mão terminou de abrir a cabeça de Ramon e puxou tudo lá de dentro, colocou na bolsa de Ramon e foi para a pia. Lavou o rosto, passou uma água na boca. Ajeitou o cabelo no espelho e saiu, com a mochila e com a bolsa azul.
- Eu tenho o cérebro. Gostei.
- Os brócolis estão salvos!
- Sim senhor.
- Estamos indo te buscar Pedro, em três meses estaremos aí.
- Dispenso senhor. Vou ficar aqui.
- Temos outra missão!
- Me demito, senhor!
- O senhor é um fanfarrão!
- Já pedi para sair.
Desligou. A manchete do homem encontrado sem miolos em banheiro públco assustou Curitiba, as lendas urbanas sobre venda de orgãos tomou força. Pedro continou aqui por mais alguns anos, aprendendo muito sobre luxúria e egoísmo e de quando em quando fazia uma nova vítima. Não mais para salvar os brócolis.
Ele adorava miolo frito.
23/10/2007 19:04:22
Por Con
A noite fria ia caindo na cidade. As ondas do mar se agitavam, o vento balançava as folhas das palmeiras. As poucas pessoas que se via nas ruas andavam a passos largos, visando suas casas antes do toque de recolher da noite.
Já se via patrulheiros nas ruas. Suas capas pretas, o horrível emblema da opressão em seus braços, andando em duplas pelas vielas, ruas e avenidas da cidade. Desde o início da opressão, os patrulheiros foram o símbolo máximo do medo e do fim da liberdade.
Em um apartamento na orla da praia, seis jovens conversavam em volume mínimo. Quatro garotas, dois rapazes, discutiam detalhes sobre sua parte na manobra dessa noite.
-Risco, todos nós sabemos que corremos.
E sabiam. E estavam dispostos a corrê-lo. Se sacrificariam, se necessário, pela liberdade, pela possibilidade de se expressar, pelo direito de ser feliz.
- Então é isso... – quem falava era Juliana. Nesse grupo, não havia líderes ou comandados, mas se houvesse um líder, ela era ideal pro cargo. – Esperaremos aqui até que dêem o sinal combinado. Então, nos espalhamos e criamos aquele caos. Os patrulheiros virão, essa é a intenção, mas ainda assim será perigoso. Temos que estar todos prontos. Estão equipados?
Todos assentiram. Via-se que tinham rádios de comunicação, lanternas, granadas de fumaça, algum combustível, tochas e revolveres. Embora o plano estivesse bem determinado, todos estivessem bem equipados e dispostos a correr riscos, ainda assim, a tensão no pequeno apartamento era enorme.
O tempo foi passando. Os seis estavam dispersos pelo apartamento, ocupados em seus próprios pensamentos. Lá fora, o silêncio do medo que a noite trazia reinava sobre o uivo do vento e os ruídos do agito marítimo. De repente, a tensão se aumentou ao máximo quando o telefone de Juliana tocou. Todos se olharam nervosos: o plano previa que o toque seria no telefone de Tiago, e só em caso de problema, fariam contato com Juliana. A garota se adiantou, atendeu à chamada:
- Abortar! Fomos descobertos. Fujam!
O rosto da garota ficou branco. Mais um plano frustrado. Olhou seus companheiros, manteve a firmeza, mandou-os fugir. A saída do prédio foi tumultuada, patrulheiros apareceram, houve tiros, correria, gritos, morte.
Mais tarde, refugiada, em segurança (mesmo que frágil e temporária), desabou. Sentiu-se fraca, impotente. A opressão continuava, o medo continuava, o autoritarismo continuava. A cada novo plano, a cada nova tentativa, um novo fracasso. Mas era preciso continuar, erguer a cabeça e lutar. Levantou, se recompôs. Fez algumas ligações, mandou alguns recados. Era hora de recomeçar a pensar.