Pedro era megalomaníaco. Ponto. Os que o conheciam sabiam disso - a questão é que e ninguém realmente o conhecia. Pensava globalmente, queria tudo. Queria envelhecer viajando por aí e não viajar já velho. Queria condiçõesde pagar boas putas, novinhas e limpinhas agora e não só quando velho. Se fosse solteiro, claro.
Pedro nunca suportará ficar preso a um único lugar, idéia, planeta ou pessoa.
Pedro
Pedro o viajante,
o mochileiro,
tantas vezes muambeiro.
Pedro Pedro Pedro
Pedro sempre,
com pouco dinheiro.
E esse foi um dos motivos que o levou a internet como uma fonte alternativa de renda. Do nadas surgiu este freelancer - miserável como todo o autonomo deve ser. Mais liberdade que um escritório ou abrir uma agência permitiria. Bem mais. Em contrapartida, ganhando menos. Bem menos.

Pedro não tinha ruim. Jeitinho aqui, trabalho ali, uma idéia boa - mal executada como sempre. Ah, se ele executasse suas idéias - sóbrio. Pedro o megalomaníaco. E naquela noite juntou os R$ 700,00 que acabara de receber e foi para a estação rodoviária.
Pedro tinha dezessete dias e um caixa de R$700,00 na mão e não mais que R$ 300,00 na conta para realizar esta missão.
Ia começar por Curitiba - no máximo duas semanas. Lá tinha onde ficar e podia conseguir algum dinheiro a mais para seguir seu rumo. Chegou na rodoviária era pouco mais de oito horas, estômago embrulhado - não sabia se pelo sanduíche de comida vencida ou pela ansiedade de finalmente botar o pé na estrada rumo ao que ele queria.
Péssima hora aquela para encontrar ela lá. Sentada, sozinha e falsamente vulnerável, tomando o vento forte direto na cara. Surpresa para ambos aquele encontro.
- Pedro! Tu vais viajar?
- Não, vim comprar uma casa - Pensou, rabugento como só ela conseguia o deixar.
- Vou sim, Curitiba. E tu, vai pra onde?
- Curitiba! Estou com a passagem do Marcus sobrando, ele foi ontem de carona e não consegui trocar...
Ah, aquele seu jeito amiguinho e humano de ser. É meu velho Pedro, foram poucos minutos de conversa e tu se deixou levar: quase oito horas ao lado de Carol.
Aliviado pela chegada, em Curitiba ele se despediu e ela percebeu algo estranho. Carol não era moça burra, ligada que era sabia que Pedro estava aprontando alguma coisa - ela sabia das loucuras que ele era capaz.
- Que tu tá armando, Pedro?
- Nada.
- Para Pedro, conta! Quero saber, eu vou junto!
- Nem fodendo, vai lá que o Marcus deve tá te esperando.
- A gente terminou. Terminou.
- Ta, tchau.
- Eu sei de tudo Pedro.
E foi jogando verde que Carol conseguiu levar o inocente pedro a aceitar a companhia. Pedro, macho-frouxo-abalado como qualquer um é perante a beleza e falsa vulnerabilidade da amada - a tendência masculina é proteção, por isso a forte atração por fêmeas vulneráveis, no caso dos humanos mulheres com rosto de menininha. Ficou ali parado olhando fundo nos olhos de Carol. Cor mel, parecem sempre prontos para lacrimejar. Bonitos olhos.
No segundo dia estava Pedro no hotel pensando em como conseguir dinheiro enquanto admirava a paisagem curitibana. Nós não vamos pagar o hotel, não vamos. Carol acordou e quando se inteirou das idéias, aceitou.
Pedro só tinha quinze dias e o seu estranho celular bipou - "continua quinze dias mas ele sai de Curitiba em seis dias" falou a voz fanha-computadorizada do outro lado da linha.
Até o quinto dia tudo que os dois tentaram deu errado e eles já estavam no terceiro hotel - sempre aplicando pequenos golpes para não pagar as diárias inteiras. Ainda tinham trezentos reais, insuficientes até para a comida. Pedro apesar de magro comia por três.
- Depende de nós, ele não pode escapar Carol!
- O que depende de nós?
- Os brócolis! Você disse que sabia!
- E como vamos fazer?
Ela não fazia idéia do que estava se passando. Pedro o inocente sendo enganado por uma gostosa de dezenove (bem vividos) anos. Toda sua experiência foi inútil contra isso Pedro.
Carol acendeu um baseado que Pedro prontamente tragou e prendeu. As idéias fluiam loucamente quando Pedro fumava um baseado. Ele conheceu os efeitos da maconha a pouco tempo e os adorava. Não entendia a proibição. E foi em uma de suas viagens enquanto beijava Carol - outra recente descoberta para ele - que ele viu a solução para os problemas.
Os brócolis, ah os brócolis. Ele tinha que deter o Ramon ainda em Curitiba senão tudo ficaria mais difícil. Naquele dia ele foi para a feira da cidade equipado com seu celular estranho - identificador de não-humanos. Passou dois dias sem dormir, perambulando pela cidade ao redor daquela feira. Tinha certeza que Ramon passaria por ali.

No final do segundo dia já exausto ele estava pronto para desistir e ir para o hotel encontrar com Carol para alguma transa enlouquecida - descoberta recente para Pedro. Mas ele estava certo - seu celular bipou indicando que algo estranho estava por ali. Guardou o celular no bolso e passou a se guiar pelo olfato, andando alguns poucos metros de de cabeça erguida chegou perto de um homem de terno cinza, chapéu e óculos de lente. O cheiro é dele, é Ramon, pensou.
Se afastou discretamente e manteve o homem em seu campo de visão enquanto o seguia. Ramon carregava uma bolsa e andava distraído, o que lembra muito o Pedro. Depois de quatro quarteirões de caminhada eles já estavam em uma rua pouco movimentada e começava a escurecer, mas foi quando Ramon entrou em um banheiro público que Pedro viu sua oportunidade de acabar com aquilo tudo.
Quando Pedro entrou Ramon estava em algum box do banheiro. Ele subiu no primeiro box e olhou o para o do lado, deu sorte, ali estava Ramon sentado e fedendo cada vez mais. A expressão facial de Pedro se transformou naquele momento. Seu natural semplante de paz estampado no rosto acabou. Os olhos transmitiam uma imensa vontade de matar, enquanto começava a babar e sua respiração ficava mais forte.
Ramon ouviu a respiração mas quando olhou para cima e tentou levantar - espalhando merda por toda a privada - já era tarde, Pedro se lançou sobre Ramon e seus dentes acertaram a moleira de Ramon. Duas, três mordidas. Nenhum grito e Ramon se estatelou contorcido no box.
Estranhamente Pedro sempre levava em sua mochila uma toalha. Era motivo suficiente para Carol o tornar motivo de chacota. Ele pouco se importava. Pegou a toalha da mochila e limpou sua cara. Com a mão terminou de abrir a cabeça de Ramon e puxou tudo lá de dentro, colocou na bolsa de Ramon e foi para a pia. Lavou o rosto, passou uma água na boca. Ajeitou o cabelo no espelho e saiu, com a mochila e com a bolsa azul.
- Eu tenho o cérebro. Gostei.
- Os brócolis estão salvos!
- Sim senhor.
- Estamos indo te buscar Pedro, em três meses estaremos aí.
- Dispenso senhor. Vou ficar aqui.
- Temos outra missão!
- Me demito, senhor!
- O senhor é um fanfarrão!
- Já pedi para sair.
Desligou. A manchete do homem encontrado sem miolos em banheiro públco assustou Curitiba, as lendas urbanas sobre venda de orgãos tomou força. Pedro continou aqui por mais alguns anos, aprendendo muito sobre luxúria e egoísmo e de quando em quando fazia uma nova vítima. Não mais para salvar os brócolis.

Ele adorava miolo frito.
Tags: pedro, ficção, humor, crônicas, contos,


