Buenas, povo! Como vocês podem perceber (pela falta de atualização por aqui) to numa correria infernal e isso é bom, muito bom. Trabalhos e trabalhos resultando em duas de minhas paixões: design e dinheiro.
Não arrumo tempo para escrever mas não largo o vício da leitura e em uma das
seletascomunidade do Orkut (bah) que participo (sobre design) encontrei o blog de Alexandre Bobeda, que autorizou a publicação de um de seus contos.Sem mais delongas, com vocês "Mosaico em preto-e-branco".
Nina, uma menina de cinco anos, brincava com seu pequeno poodle no jardim da casa dos pais num subúrbio de Estocolmo, na Suécia. Ela nem percebia o quão simples era a situação, talvez até mesmo banal. Falava com o animalzinho em sueco, mas também arriscava já algumas bem colocadas frases em inglês. Seu pai se dirigia a ela falando com vigor em sua dura língua nórdica, que se transformava em inglês quando ele precisava falar com sua mãe – ou seja, o tempo todo. Uma rotina que só a lourinha notava.
Mas, quando Nina falava com sua mãe, se esforçava para conseguir pronunciar bem as escorregadias palavras de uma língua que, na ainda confusa cabecinha da menina, parecia muito difícil, embora de uma agradável sonoridade: o português. Dificilmente ela poderia dizer “carioca” sem vacilar. E sua mãe, que de sueco só sabia as palavras básicas, para saudações, cumprimentos e pequenas gentilezas, evitava o inglês quando falava com Nina, a fim de que a doce e pequena lourinha pudesse se acostumar aos chiados e ao ritmo alegre de uma língua que, para a menina, não vinha de uma terra longínqua chamada Brasil, mas apenas do falar carinhoso de sua mãe.
No meio de tudo isso, a pequena Nina criou um imaginário particular no qual o mundo era mais ou menos dividido em duas línguas: o sueco e o inglês. Talvez ela até pudesse pensar que existiam outras, mas isso não era importante. Até porque, em outros países que a família visitou pelo mundo, a lourinha se lembrava que seus pais falavam quase sempre em inglês. No seu mundinho ainda em formação, sua mãe era a única pessoa no planeta que falava nesse estranho idioma. Ainda mais porque, ao ver os jogos de futebol cujo time vestia uma camisa amarela idêntica a que adornava sua mãe, os jogadores não falavam. Mas, na hora da comemoração, Nina sempre vibrava à sua maneira. Em sueco.
Até que um dia, numa de suas férias escolares de agosto, a menina veio feliz com sua família a um lugar encantador, com praias e montanhas casadas com uma grande e bela cidade. Antes disso, o Rio, para ela, era apenas o cartão-postal preferido de seu avós, que todos os meses já lhe enviavam alguma mensagem por escrito – lida em voz alta por sua mãe. Então, tudo mudou quando a pequena lourinha sueca pisou pela primeira vez no calçadão da orla de Ipanema. Aquela confusão de sons e palavras que se pareciam a várias outras que sua mãe já lhe falara, a deixou maravilhada. O mosaico em preto-e-branco das pedras portuguesas da calçada se tornou a associação perfeita para o que, segundo ela e sua imaginação, poderia ser mais uma novidade acerca do mundo em que vivia. Aquelas “ondas” com os círculos, ambos alternadamente dispostos em duas cores, formavam uma realidade que ela pensava que só existia através de sua mãe.

Nina, assim, tomou-se de encanto ao descobrir que existe um lugar, com uma bela e exuberante praia de água turquesa, onde as pessoas, falam, gesticulam pensam e sentem como sua mãe: em português. Se ela pudesse se expressar da mesma forma, diria a todos que a vida aqui é mais feliz, que o sol brilha intensamente, que este lugar é mais colorido do que parece, que as pessoas podem ser alegres à sua maneira e que o mundo não fala só inglês ou sueco. E isto foi apenas seu primeiro passo. Toda essa alegria trouxe também uma viva curiosidade.
Agora, Nina se pergunta como será o mundo além de seu próprio universo.
Eu nem preciso dizer que gostei, senão não o publicaria aqui. Se você, leitor culto e maníaco por leitura, gostou tem mais alguns que recomendo a leitura no Outro Lado Contos.
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