Em uma daquelas insônias que dá vontade de tomar tranquilizante de elefante me coloquei a pensar: e se eu morresse?
E essa é a única certeza desta vida, nós morreremos. Mas e se eu morresse naquela mesma madrugada fria?
Não disse pra minha mãe o quanto eu admiro ela no dia anterior, e isso me fez me sentir na maior das dívidas com ela, que sempre se sacrificou MUITO para diversos luxos e oportunidades que tive (e tenho) na vida. Nem falei pro ranzina do meu irmão que ele é um puta de um amigão, o melhor dos amigos. E nem contei pra minha irmã um segredo: que sempre a admirei pela inteligência e dedicação que tem para as coisas dela e que eu acho que ela vai ser uma super arquiteta, se assim quiser.
Não foram só esses pensamentos mais que manjados - não foi só a vontade de ligar pra minha namorada dizendo que estava com saudades, que ela era a mais especial das criaturas que apareceu na minha vida e mudou para melhor as minhas tortas linhas de raciocínio. Avisá-la que apesar de eu até estar pegando gosto pelas pesquisas acadêmicas, eu não servia para aquilo mesmo. Não foi só isso, e o sono apesar de me permitir mais ou menos delirar acordado não me permitia dormir e descansar de verdade.
Meus pensamentos foram mais longe.
Relacionamos a morte com dor e perda, e para mim ela nada mais é do que isso. Passagem? Para onde? Para baixo de sete palmos de terra talvez, e só. Talvez por essa relação quando pensamos em morte, automaticamente pensamos nas pessoas que amamos, lembramos de alguma péssima experiência e pensamos que, provavelmente, as pessoas que amamos passarão por isso e por nossa... culpa?
E entre estes vários devaneios, o céu ligeiramente claro, os pássaros começando a cantar em seus tempos e compassos perfeitos, resolvi desistir do sono. Sentei na minha escrivaninha e todos aqueles pensamentos me fizeram perceber como eu estava cercada de pessoas que eu quero bem.
Fiz uma pequena lista de coisas simples que eu sempre quis fazer mas, por preguiça, comodismo, sei lá o que, inventei uma desculpa em que só eu acreditava: não tenho tempo e isso será só um hobby.
Na mesma semana comecei a tocar teclado, tomar café depois do almoço conversando com a minha mãe no sol e não mais respondendo e-mails, joguei (e perdi) uma partida de xadrez com meu irmão. Naquele final de semana reuni amigos aqui em casa, bebemos e falamos da vida enquanto eu encaminhava meu irmão, muito chato naquele estado etílico para a cama.
Agora, uma semana depois, se alguma coisa acontecer nessa outra madrugada fria, me sentirei muito menos culpado.
Tags:


